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Luta contra corrupção com “impacto directo nas receitas VIP”
Domingo, 25/01/2015

“A campanha anticorrupção de Xi Jinping teve um impacto directo nas receitas do segmento VIP”, disse à Rádio Macau Steve Vickers, o líder da consultora International Risk. Vickers, que dirigiu o Gabinete de Informações Criminais da polícia de Hong Kong, observou à Rádio Macau que a quebra das receitas do sector do jogo é uma consequência da luta contra a corrupção na China, à qual os “junkets”, os promotores de jogo, ficaram expostos: “Julgo que temos que ser realistas sobre o que se passava em Macau. Os recentes acontecimentos mostram que o rei ia nu, e por isto refiro-me ao envolvimento dos promotores de jogo na transferência de dinheiro da China e o nível de controlo que as tríades tinham sobre os ‘junkets’. A campanha anticorrupção de Xi Jinping teve um impacto directo nas receitas do segmento VIP”.

 

A análise de Steve Vickers contraria a versão oficial, na qual a quebra nas receitas se deve a “factores externos”, como referiu, ainda na semana passada, num encontro com os jornalistas, o novo secretário para a Economia e Finanças, Lionel Leong, sem especificar que factores.

 

Na semana que passou, Li Gang, o director do Gabinete de Ligação do Governo Central em Macau, recusou qualquer relação entre a queda do jogo e a campanha contra a corrupção que tem sido levada a cabo na China pelo presidente, considerando que “não é possível dizer que a descida é devida ao combate à corrupção. São muito raras essas situações. Quantos corruptos vêm a Macau? A receita do jogo é de mais de 300 mil milhões de patacas. Quanto dinheiro terá sido gasto por funcionários corruptos?”

 

Segundo Steve Vickers, “o envolvimento das tríades e do crime organizado no sector dos ‘junkets’ tem sido negado por alguns dos maiores casinos, mas qualquer pessoa que perceba alguma coisa de Macau sabe que essa nunca foi a verdade. Estou na Ásia há 40 anos, fui o director dos serviços de informação de segurança em Hong Kong e o meu trabalho era monitorizar as tríades. Nunca tiveram um tempo tão bom como nos últimos dez anos. Creio que isso está a chegar ao fim”.

 

Vickers observa que “uma das razões por que a repressão em Macau está a acontecer é devido a questões fiscais, e não necessariamente devido ao crime organizado”.

 

De acordo com o consultor, “se assumirmos que as receitas oficiais dos casinos são de cerca de 41 a 45 mil milhões de dólares americanos, e se multiplicarmos esse valor por seis – porque julgo que é esse o real valor –, estamos a falar de 250 mil milhões de dólares que saem da China, em dinheiro vivo. Isso é mais do que a actual economia consegue aguentar. Quando a China sofria com a inflação, esse era o medo – a inflação. A saída de dinheiro para Macau não era uma coisa má para a economia”.

 

Mas agora, num cenário de abrandamento na segunda maior economia do mundo, “não faz sentido a sangria de dinheiro através de Macau. Em segundo lugar, os ‘junkets’ fazem parte do esquema que ajuda os funcionários do governo corruptos a transferirem o dinheiro para fora da China através de Macau. É um motivo indirecto para a pressão que está a ser feita. E em terceiro lugar, há questões de unidade em Macau. Por exemplo, temos agora um novo Governo em Macau e julgo que será muito mais duro que o anterior e que vai reforçar a capacidade de Pequim limpar o sector do jogo e controlar os fluxos de dinheiro que passam por Macau”.

 

Para o consultor, “as acções contra a corrupção estão a ser institucionalizadas e a Comissão de Inspecção da Disciplina do Partido Comunista Chinês está a tornar-se num canal cada vez mais poderoso, através do qual a liderança está a exercer a sua influência. Estes desenvolvimentos vão continuar a afectar Macau, ao intimidarem os grandes apostadores”.

 

Para Steve Vickers, “não é o fim da indústria do jogo de Macau, é apenas o novo normal. Um normal em que os casinos não vão fazer 80 por cento dos lucros com um por cento dos clientes. Terão que servir o mercado de massas e terão que oferecer mais serviços, que é o que o Governo Central quer, em termos de entretenimento, convenções e exposições e outras coisas que foram prometidas. Não acho que isto seja mau para Macau. Podemos ouvir gritos dos casinos, mas no geral não acho que seja assim tão mau para Macau”.

 

Já quanto ao modelo dos “junkets”, Vickers diz que está “desfeito”: “Não acho que esse fosse o objectivo concreto do Governo Central, mas acredito que queriam domá-los, por forma a controlar a saída não autorizada de dinheiro da China. Começo a ver um grande número de operadores de ‘junkets’ a implodirem. Entre 16 a 18 vão simplesmente desaparecer. E também começo a ver que os grandes jogadores chineses, em vez de virem para Macau, ou, em menor escala, para Singapura, começam a ir para as Filipinas, Camboja, Vietname, ou mesmo para a Austrália para evitarem a atenção do Governo Central”.

 

A observação de Vickers sobre o desaparecimento de “junkets” bate certo com os números que a Rádio Macau apurou: 19 operadores pediram cancelamento das licenças nos últimos tempos.

 

A nova situação da principal indústria de Macau é o tema da Reportagem Rádio Macau, “As Novas Regras do Jogo”, que vai para o ar este domingo às 16h30 e é repetida segunda-feira às 11h30.