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Stiglitz recomenda que Macau gaste mais na educação e saúde
Quinta, 27/03/2014

Apostar na educação e saúde, em vez de distribuir cheques. Foi esta a recomendação deixada ao Governo de Macau por Jospeh Stiglitz para que se partilhe a riqueza de forma sustentável. Na sétima edição do Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental, o vencedor do prémio Nobel da Economia, em 2001, que defende que a única prosperidade verdadeiramente sustentável é a que se partilha, afirmou num encontro com jornalistas que, no caso de Macau, em que as receitas do Executivo permitem a distribuição de dinheiro pelos residentes, “a minha recomendação iria no sentido de gastar mais na educação e na saúde, torna-las acessíveis a toda a gente, porque os beneficiários vão incluir as crianças mais desfavorecidas e isso vai aumentar as oportunidades”.

 

Joseph Stiglitz argumenta que numa sociedade onde não há oportunidades apenas cresce a desigualdade e isso tem custos, económicos e sociais: “As sociedades em que a divisão entre ricos e pobres é muito grande tornam-se disfuncionais sob todas as formas. Os piores exemplos estão na América Latina, onde os ricos vivem em condomínios fechados e as crianças têm que ter guarda-costas. É uma vida bastante desagradável. Até para os ricos. Esse tipo de sociedade não é do interesse nem dos mais ricos”.

 

“O Preço da Desigualdade” é o título de um livro de Stiglitz e também o tema de uma palestra que o professor catedrático da Universidade de Columbia, e ex-economista-chefe do Banco Mundial, profere amanhã na Universidade de Macau, no campus da Taipa.

 

No encontro de hoje com jornalistas locais, Stiglitz defendeu também que uma baixa taxa de desemprego, como Macau tem, é a melhor política para ajudar as classes mais desfavorecidas: “Em Macau, tem havido emprego pleno. Seja de que forma for que se atinja esse objectivo, haverá efeitos positivos. A forma como isso foi conseguido em Macau foi através de uma indústria em concreto, mas a razão fundamental não é a indústria, mas sim que existe emprego pleno, e essa é a política mais importante – ou das mais importantes – que qualquer sociedade tem que ter”.

 

Joseph Stiglitz abordou também a crise portuguesa, para defender a reestruturação da dívida: “Precisam reestruturar a dívida e quando o fizerem devem fazê-lo de uma forma profunda. Se essa reestruturação não for suficiente, voltarão a ter problemas dentro de três anos, tal como a Grécia teve”.

 

De acordo com Stiglitz, a resistência a esse plano de renegociar a dívida vem do Banco Central Europeu e da Alemanha: “Há uma resistência muito grande no Banco Central Europeu e na Alemanha à reestruturação da dívida. Representam os interesses dos credores que querem sempre estrangular o devedor. O que é pouco inteligente, porque estrangulando o devedor conseguem menos do que conseguiriam se o tratassem bem. Mas há uma propensão para estrangular”.

 

Joseph Stiglitz mostrou-se bastante crítico em relação à Europa, considerando que, conforme existe, a zona euro é um erro: “Julgo que o ponto crítico, para a Europa, para a zona euro, é que é um arranjo económico bastante defeituoso. Não facilita o ajustamento, cria uma série de inflexibilidades. E não há o enquadramento institucional que possa restaurar rapidamente o crescimento. É um sistema instável”.

 

Stiglitz acrescenta que a zona euro apenas aumenta as diferenças entre países ricos e pobres, em vez de diminui-las: “Quando há uma crise, não se limitam a impor medidas de austeridade – o que é uma política errada e devastadora. Mas porque existe um mercado único, o dinheiro sai dos bancos espanhóis, portugueses e gregos para a Alemanha. Temos uma situação em que sai dinheiro dos países mais fracos para os mais fortes. O sistema foi criado para criar divergência, em vez de convergência”.

 

O professor entende que a solução passa por uma verdadeira união bancária: “Uma verdadeira união bancária não consiste apenas na supervisão comum. É também uma política comum de seguros de depósitos e resoluções comuns. E isso está a anos-luz. Falam disso, mas não está na agenda”.