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Manuais: Historiadora desvaloriza polémica sobre corrupção
Quarta, 13/06/2018
A historiadora Tereza Sena diz não ver “qualquer problema” com as referências à corrupção durante o processo de fixação dos portugueses no sul da China usadas no manual de história elaborado pelos Serviços de Educação e Juventude em colaboração com uma editora chinesa.

A investigadora falava à TDM - Rádio Macau depois de o Gabinete do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura ter informado que vão ser eliminadas dos manuais de história da China as “referências negativas sobre a passagem dos portugueses”.

De acordo com um curto comunicado, “a associação dos portugueses a actividades de contrabando e corrupção não será incluída na versão final” dos livros escolares, que no início do ano foram enviados em formato digital a 43 escolas secundárias. Caberá às instituições decidir se vão usar o manual já a partir do próximo ano lectivo.

Em declarações à TDM – Rádio Macau, no último dia 4 de Junho, o deputado Sulu Sou criticou a visão parcial do manual e a imagem negativa deixada sobre os portugueses.

De acordo com o Jornal Tribuna de Macau, o livro, que se estima vir a ser adoptado por metade das escolas secundárias, refere-se aos portugueses que primeiro chegaram à China usando expressões como “contrabando e actividades de piratas”, bem como “crimes de corrupção”.

Segundo o jornal, o livro, que apenas existe na língua chinesa, refere que os portugueses “obtiveram autorização para usar os portos de Cantão e praticar actividades comerciais no âmbito de um esquema de corrupção que envolveu oficiais de Guangdong, e que permitiu a vinda gradual dos portugueses”.

Ouvida pela TDM - Rádio Macau, Tereza Sena lembra que foi assim que as circunstâncias se desenrolaram, tendo em conta que Portugal não fazia parte dos países que prestavam tributo à China: “o comércio externo na China estava bastante regulamentado. O comércio considerado lícito, autorizado, era o comércio tributário, com toda uma componente de inserção na geopolítica chinesa da altura e dos chamados mares do Sul da China. Tudo o que fosse fora desse esquema podia ser apelidado como corrupção e aqueles que permitiriam esse tipo de negócios [eram] apelidados de corrompidos e os outros comerciantes que chegassem aqui fora desses tais esquemas os corruptores. E também estamos a falar do século XVI e não do século XXI, em que essas noções são completamente diferentes. Portanto, não vejo qualquer problema em relação a isso”.

Tereza Sena ressalva, ainda, que não se pode olhar para a “instalação dos portugueses na costa do sul da China como um processo nacional”.

Segundo a investigadora do Instituto Politécnico de Macau, “não é a Coroa portuguesa que chega aqui e que se instala”. Ao invés, nota, “estamos a falar de comerciantes privados, mercadores que vão aproveitando diversos tipos de oportunidades e que se inserem nas redes mercantis preexistentes asiáticas”. Portanto, conclui, “são negócios que permitem, obviamente, esse tipo de abordagens”.

No último Dia de Portugal, o secretário Alexis Tam foi confrontado por jornalistas com as críticas que surgiram na sequência da divulgação do conteúdo do manual, tendo o secretário afirmado que estava “também preocupado” com a situação.

Antes, nas declarações à TDM - Rádio Macau, Sulu Sou, que também é vice-presidente da Associação Novo Macau, lamentava que o manual “descreve o governo português como uma coisa negativa para Macau”.

O livro, produzido com a colaboração da Editora de Educação Popular, que funciona sob a liderança do Ministério da Educação chinês, foi anunciado pelo Chefe do Executivo, Chui Sai On, em Novembro de 2016.

Na Assembleia Legislativa, o líder do Governo afirmou que os manuais com conteúdo uniforme aos do interior da China poderiam ser usados no ano lectivo de 2019/2020, mas os Serviços de Educação e Juventude disseram agora que o recurso ao material didáctico pode ser feito já a partir do próximo mês de Setembro.

Segundo Sulu Sou afirmou à TDM – Rádio Macau, o manual é composto por 18 capítulos, sendo que três são dedicados a Macau.

Tereza Sena diz que é compreensível que Macau não ocupe uma parte significativa num livro que é sobre a história da China. Nesse sentido, a investigadora defende “um espaço de liberdade para a introdução do tema história de Macau no currículo escolar”.

Hugo Pinto