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Poesia de Estima de Oliveira é “um marco de inovação”
Terça, 01/05/2018
A escrita de Alberto Estima de Oliveira representa um “marco de inovação” na poesia de língua portuguesa feita em Macau, disse à TDM – Rádio Macau José Carlos Seabra Pereira, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, especialista em Literatura Portuguesa Moderna.

Passam hoje 10 anos da morte de Alberto Estima de Oliveira, poeta que viveu em Macau ao longo de duas décadas e cuja obra é analisada em “O Delta Literário de Macau”, estudo de Seabra Pereira sobre autores de língua portuguesa a partir do século XIX.

Em “O Delta Literário de Macau”, de 2015, Seabra Pereira apresenta Estima de Oliveira como um dos poucos autores de língua portuguesa a enveredar em Macau por “novos e mais altos rumos de poesia”, aliás o título do capítulo que abre com o autor desaparecido há uma década.

Nestas declarações à TDM – Rádio Macau, Seabra Pereira destacou uma poesia que se distinguiu desde a primeira hora: “O Alberto Estima de Oliveira é um marco nesse rasgo de inovação. Ninguém ainda, em Macau, tinha querido correr esse risco, e, nesse sentido, Estima de Oliveira abre novos caminhos que, se não eram totalmente inéditos em termos de panorama das literaturas em língua portuguesa, eram-no seguramente em Macau”.

Alberto Estima de Oliveira, nascido em Lisboa no dia 1 de Julho de 1934, chegou a Macau em 1982, tendo permanecido no território até 2002. Os vinte anos que passou em Macau representam o período de maior produção artística do autor que se estreou nas publicações com “Tempo de Angústia” (1972), em Angola, onde chegou em 1957, com 23 anos, tendo ali permanecido até 1975. Nesse ano, regressou a Portugal até partir de novo para África, em 1977, esperando-o, dessa vez, a Guiné-Bissau, onde ficaria por cerca de três anos.

O segundo livro de Alberto Estima de Oliveira, “Infraestruturas”, só surgiria em Macau, em 1987, tendo sido seguido por “O Diálogo do Silêncio” (1988), “O Rosto” (1990), “O Corpo (Con)Sentido” (1993), “Esqueleto do Tempo” (1995) e “Estrutura I – O Sentir” (1996).

Em Macau, em 1997, foi ainda editado um CD com os poemas de Estima de Oliveira, “Diálogos do Silêncio”, ditos por Hélder Fernando e acompanhados pelo violino de Carlos Damas.

Em 2003, tendo Estima de Oliveira já fixado residência em Lisboa, seria dado à estampa o seu último livro em vida, “Mesopotâmia – Espaço que Criei”.

Apesar de considerar que a poesia de Alberto Estima de Oliveira tem uma “orientação estética tributária do construtivismo modernista, de feição abstraccionista”, como escreve em “O Delta Literário de Macau” – obra que venceu em 2016 o Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho/Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, promovido pela Associação Portuguesa de Escritores –,
Seabra Pereira entende que a “consciência estética, meta literária”, ainda que forte, “não afasta o leitor”.

Ressalvando que, em certos momentos, a poesia de Estima de Oliveira “ameaça” ser “hermética, difícil”, Seabra Pereira observou à TDM – Rádio Macau que essa impressão é apenas “um falso alarme”.

“Houve alguma reacção, mesmo no meio cultural de Macau”, recordou Seabra Pereira, “quando ele começou a pôr títulos aos seus livros menos conformes com a tradição lírica”. E exemplificou: “Chamar a um livro ‘Infraestruturas’ gerou algum susto, talvez, em relação ao que podia ser uma deriva hermética, fechada. Creio que depois se percebeu que não era isso o fundamental”.

Sobre Macau, José Carlos Seabra Pereira comenta que a poesia de Estima de Oliveira reflecte uma relação feita de contrastes, “com dupla faceta”.

Se, por um lado, “sente-se a sugestão do incómodo ou mesmo da reprovação em relação a tudo o que degrada esse espaço físico e humano”, por outro, acrescenta Seabra Pereira, a escrita denota “uma salvaguarda de uma relação lírica e afectiva, mais harmónica, mais fecunda, com certos momentos em que esse espaço parece humanizado no silêncio, no recolhimento”.

Lamentando a pouca difusão da obra de Alberto Estima de Oliveira, Seabra Pereira defende que merecia ser mais conhecida: “Quando, em Portugal, certos críticos e até escritores já de formação ou, pelo menos, de maturação no século XXI – estou a pensar, por exemplo, no Pedro Mexia –, chegam ao conhecimento da poesia de Alberto Estima de Oliveira, não têm dúvidas em escrever sobre ela de uma forma não só compreensiva, mas laudatória e sublinhando as potencialidades dessa poesia. Não tenho dúvidas nenhumas que devia ser mais conhecido, não só aqui em Portugal, mas até em Macau”.

O primeiro livro que Alberto Estima de Oliveira publicou em Macau, “Infraestruturas”, foi republicado em 1999 numa edição bilingue, em português e chinês, com tradução de Yao Jing Ming.

Em 2000, foi publicado o livro “7 Poems”, uma selecção traduzida para inglês por Rui Cascais, que teve nesse ano apresentação no IV Festival Internacional de Poesia na Roménia, país onde, em 1999, Estima de OIiveira tinha sido galardoado com o Grande Prémio Internacional de Poesia, na terceira edição do “lnternational Festival Curtes de Arges Poetry Nights”, que decorreu na cidade de Curtea de Argeș.

O livro “Mesopotâmia - Espaço que Criei” seria também traduzido para romeno e editado pela Academia Romena Internacional Oriente-Ocidente.

A poesia de Estima de Oliveira foi distinguida com prémios em festivais internacionais em, pelo menos, mais três ocasiões: em Las Palmas de Gran Canaria, em 1996 e 1998, e no Congresso Mundial de Poetas, realizado em Acapulco, no México, em Outubro de 1999.

Hugo Pinto