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Eleições HK: Pequim ainda não deu sinal, garante Johnny Lau
Domingo, 18/03/2012

Pequim ainda não deu sinal sobre quem prefere para Chefe do Executivo, garantiu ao magazine de informação da Rádio Macau, Paralelo 22, Johnny Lau, um comentador político de Hong Kong, que tem acompanhado atentamente o assunto.

 

Na entrevista com a jornalista Sofia Jesus, gravada na RAEM, onde veio esta semana para dar uma aula na Universidade de Macau, Johnny Lau sublinha que, “até este momento, o Governo Central não emitiu qualquer sinal [sobre quem quer que vença].” Pequim, acrescenta o docente, “não quer que as pessoas de Hong Kong fiquem com a impressão de que está por detrás destas eleições.” “Parece-me uma boa política”, diz.

 

Segundo o comentador político, esta será, aliás, uma das razões pelas quais a máquina de censura chinesa proibiu a publicação de notícias sobre as eleições de Hong Kong nos media do Continente, sem autorização prévia do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau junto do Conselho de Estado. O que quer que fosse publicado no Interior da China, nota Johnny Lau, poderia ser interpretado pelos membros do Colégio Eleitoral em Hong Kong como um sinal da preferência de Pequim.

 

Mas isto não quer dizer que não haja jogo de bastidores. Por estes dias, lembra o comentador político, o Governo Central andará ocupado a medir os efeitos dos escândalos que têm manchado os dois candidatos pró-Pequim, Henry Tang e CY Leung. “Será que os escândalos vão criar mais dificuldades a Pequim? Será que vão provocar um embaraço aos líderes chineses? Penso que Pequim vai esperar para ver até à última hora.”

 

Mas os problemas não ficam por aqui. O Governo Central andará também a tentar perceber de que forma pode conseguir convencer os magnatas de Hong Kong a votarem num determinado sentido. “Toda a gente sabe que os principais magnatas de Hong Kong apoiam Henry Tang e querem ser eles a coroar o rei. Nos últimos anos, tem havido muitos conflitos na sociedade de Hong Kong, criados pelos magnatas. Pequim vai ouvir o que eles têm a dizer. Se Henry Tang não puder ser o candidato elegível ou se os escândalos que o atingem se agravarem, será que os magnatas podem mudar de atitude para apoiar CY?”, questiona-se o comentador.

 

Num cenário destes, se os magnatas insistirem em apoiar Tang, Pequim vai ficar numa situação complicada. É que, segundo Johnny Lau, o Governo Central acredita que, neste momento, torna-se difícil apoiar o antigo secretário-chefe.

 

Mas e os escândalos que têm envolvido CY Leung? Será fácil para Pequim apoiá-lo? “Até este momento, a situação parece ser um pouco mais favorável a CY Leung, porque ele analisou todas as crises e foi capaz de geri-las. Apesar de ser acusado de ter ligações às tríades, as explicações que deu foram aceites por uma parte da opinião pública. A Comissão Independente Contra a Corrupção e a Polícia estão a investigar, mas penso que, de acordo com as provas que há agora, este caso não deve prejudicar muito CY Leung.”

 

Mas há outro processo que tem denegrido a imagem de CY Leung: o concurso de design do bairro de artes de Kowloon. A investigação por parte do Conselho Legislativo (Legco) está marcada para a próxima terça-feira, cinco dias antes das eleições. Tudo dependerá das conclusões do inquérito.

 

No que toca a Henry Tang, a construção de uma cave ilegal pode dar origem a um processo criminal. Se for eleito Chefe do Executivo, pode invocar imunidade, mas Johnny Lau lembra que não pode escapar à condenação moral, sobretudo depois de ter responsabilizado a mulher por tudo. Explicações que, na sua opinião, não convenceram a população de Hong Kong.

 

“Até agora, CY Leung continua a beneficiar da maior taxa de popularidade em Hong Kong. Henry Tang só tem cerca de 20 por cento de apoio. Mas se olharmos para o apoio a Albert Ho, as últimas estatísticas mostram que obtém 19 por cento”, afirma o comentador.

 

Seja quem for o vencedor, Henry Tang ou CY Leung, não vai ter um mandato fácil, avisa Johnny Lau. “Há uma série de escândalos. E mesmo que um deles ganhe, não vai poder escapar das consequências desses casos. Por isso, creio que têm de passar um certo período de tempo a reconstruir a popularidade depois das eleições.”

 

Perante o panorama de aparente indecisão na cúpula chinesa, Johnny Lau aponta ainda um outro cenário possível: o de chegarmos ao próximo domingo e ninguém obter o mínimo de 600 votos necessários para ser eleito.

 

De acordo com Johnny Lau, em teoria haverá duas rondas. Se ninguém conseguir metade dos votos dos 1200 membros do Colégio Eleitoral, o candidato que obtiver menos votos é excluído da segunda ronda. Se, nesta segunda ronda, nenhum dos dois candidatos apurados conseguir obter o apoio de 600 pessoas, marcam-se novas eleições para 6 de Maio.

 

O docente considera que a probabilidade, por enquanto, é baixa, mas existe. “[É preciso ver] Se Pequim vai dar algum sinal para favorecer Henry Tang ou CY Leung. Se não houver qualquer sinal, isto deixará alguns membros do Colégio Eleitoral confusos. Não saberão como votar. E se votarem no candidato que preferem, então há a possibilidade de ninguém ser eleito.”

 

O cenário não agradaria a Pequim, diz Johnny Lau, mas a hipótese não foi descartada pela liderança chinesa. “Penso que o Governo Central não quer ver nada disto. Querem ver a eleição terminar no dia 25, em apenas uma ronda. Mas considero que Pequim também tem estado a preparar terreno para caso não haja um resultado final no próximo domingo.”

 

Um sinal dessa preparação é, segundo Jonny Lau, o facto de Jasper Tsang, presidente do Legco e membro do partido DAB, ter chegado a dar indicações de que poderia entrar na corrida.

 

No entender do docente, que colabora também com a Universidade de Hong Kong, Jasper Tsang pode mesmo vir a candidatar-se caso haja novas eleições em Maio: “Se houver um segundo acto eleitoral, acredito que alguém entre na corrida. Por exemplo, Jasper Tsang, presidente do Conselho Legislativo, ou talvez a deputada Regina Ip. Nessa altura, considero que os três candidatos iniciais – CY Leung, Albert Ho e Henry Tang – também vão voltar a entrar na corrida. Mas, aí, a situação será mais favorável a Jasper Tsang.”

 

Johnny Lau acredita que, por um lado, Jasper Tsang apostaria em temas que não foram focados pelos dois candidatos pró-Pequim. Por outro, o comentador sublinha que os membros do Colégio Eleitoral vão acreditar que o novo candidato conta com o apoio do Governo Central.

 

2017 tem sido apontado como o ano para o sufrágio universal em Hong Kong. Foi dado um passo, ao reforçar-se o número de membros do colégio eleitoral para 1200, mas Johnny Lau lembra que há ainda muitas dúvidas sobre o que vai acontecer daqui a cinco anos. “É preciso olhar para esta questão em termos comparativos. Houve algum desenvolvimento, os democratas entraram na eleição, tornaram-na mais popular, mais próxima do público em geral. Mas mesmo assim ainda não estamos confiantes de que haverá uma eleição aberta e justa em 2017, porque os detalhes da implementacao do sufrágio universal ainda não são conhecidos.”

 

Nestas eleições, a imprensa de Hong Kong desempenhou um papel crucial na divulgação dos casos polémicos. Johnny Lau entende que os media, em geral, cumpriram o papel que devem ter, mas admite que houve casos em que isso não aconteceu. “Provou-se que todos os escândalos são verdadeiros. Não estamos a falar de notícias falsas. Diria que, em termos gerais, os media em Hong Kong cumprem a sua função. Conseguem fiscalizar o comportamento dos candidatos. No entanto, por outro lado, infelizmente, alguns meios de comunicação social tomaram partido, para apoiar um candidato em particular.” Perderam a atitude independente, nota Johnny Lau, que entende que depois destas eleições os media devem reflectir sobre estes casos, para evitar perder prestígio.

 

A Macau o comentador deixa um recado. “A sociedade de Macau também está a mudar rapidamente. A vontade do opinião pública em Macau também está a emergir. Portanto, penso que as lições de Hong Kong devem ser também aprendidas pela população de Macau. Espero que o Governo da RAEM e a população de Macau possam eliminar os contratempos [dropbacks] das eleições de Hong Kong. Macau é uma sociedade pequena e as pessoas enfatizam muito a questão da harmonia. Portanto, a natureza das eleições em Macau é muito diferente da de Hong Kong.”

 

Johnny Lau também acredita que Pequim vai tirar lições sobre o que se passou em Hong Kong e evitar episódios menos positivos em Macau.

 

A conversa com Johnny Lau pode ser ouvida este domingo, ao meio-dia, no programa Paralelo 22 que, a partir desta tarde, fica também disponível aqui, na nossa página da internet. O magazine de informação da Rádio Macau pode voltar a ser ouvido na 98 FM esta terça-feira, às 10h30.