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Membro do Colégio Eleitoral de HK admite votar em branco
Domingo, 18/03/2012

Henry Tang e CY Leung são os favoritos, mas é certo que os membros do Colégio Eleitoral estão muito divididos e, sobretudo, indecisos. A hipótese de a 25 de Março não ser escolhido o substituto de Donald Tsang pode ser, por enquanto, reduzida, mas pode verificar-se.

 

O professor Cheng Kai Ming, membro do Colégio Eleitoral, não esconde que nenhum dos candidatos lhe agrada. Não apoia nenhum e admite mesmo votar em branco, no próximo domingo. “Para mim, isso não é nenhuma vergonha em termos da eleição em si. É vergonhoso, sim, para Hong Kong. Ou melhor, não é uma vergonha, na verdade, porque faz parte do mecanismo. Se acontecer, acontece”, disse à Rádio Macau, em entrevista à jornalista Sofia Jesus, no magazine de informação Paralelo 22.

 

O académico lamenta que nenhum dos candidatos seja aceitável. “Não conseguimos arranjar um candidato melhor que estes. É uma pena. É o contrário de Singapura. Em Singapura, há muito boa gente no Governo, na liderança. Em Hong Kong, temos líderes de topo em todo o lado, mas no Governo, na liderança, não diria que são medíocres, mas talvez sejam restringidos pelas circunstâncias. Uma vez no poder não conseguem fazer muito e ficam formatados”, nota.

 

À falta de melhor, Cheng Kai Ming admite que não seria mau se todas as pessoas se abstivessem. “Seria uma pena, mas reflectiria a realidade. E faria as pessoas de Hong Kong pensarem melhor nas coisas. Por que não?”

 

O docente da Universidade de Hong Kong, não perdoa, por exemplo, a Henry Tang e a CY Leung o facto de terem fugido a certas questões sensíveis, como a que se refere ao massacre de Tiananmen. Cheng Kai Ming critica ainda a falta de ideias inovadoras por parte dos candidatos. “Quase nos convencem que vão falhar em quase todas as áreas em que o actual Governo falha. Porque não conseguem dizer qual é a diferença! Não me importo que as melhorias sejam feitas com passos pequenos, mas têm de nos dizer quais são essas alterações”, sublinhou à Rádio Macau.

 

O professor lembra ainda que, neste momento, está tudo em cima da mesa: escândalos, casos amorosos, alegada corrupção, favoritismos. Fala num cenário de “drama” “desnecessário e desagradável”, mas que ao mesmo tempo ensinou uma lição ao território vizinho. “A sociedade, os cidadãos, aprenderam que é preciso ter cuidado. Não se pode simplesmente confiar nas aparências, no que os candidatos dizem. É preciso olhar para o que fizeram, etc. É positivo. É um bom exercício de aprendizagem, embora a curva de aprendizagem seja íngreme. Os próprios magnatas e os empresários que apoiavam Henry Tang, agora, arrependem-se.”

 

Mas se os apoiantes de Henry Tang ponderam deixar de o ser, pelos bastidores ouve-se também a expressão “ABC: anyone but CY”, que significa “tudo menos CY Leung”.

 

Quanto a Albert Ho, Cheng Kai Ming mostra-se desiludido com a postura assumida pelo candidato que, mesmo sabendo que não podia ser eleito, deveria ter feito mais pela imagem do Partido Democrático. “Esta seria uma oportunidade de ouro para os democratas demonstrarem que não são monstros, que uma vez no poder farão isto ou aquilo, de forma diferente daquilo que tem sido feito”. Mas não foi esta a postura assumida, diz Cheng Kai Ming. A arena, insiste, era perfeita. Mas os democratas desperdiçaram a oportunidade.

 

Quem também estará a aprender com tudo isto, acrescenta o académico, é Pequim. Porque não sabe o que há-de fazer e isso é bom. “Há um verdadeiro dilema, as coisas estão difíceis, Pequim enfrenta desafios sem precedentes. E isso é positivo, porque é isto que uma verdadeira eleição vai implicar.”

 

Cheng Kai Ming acredita, por isso, que não há uma verdadeira crise em Hong Kong. E Pequim até pode sair bem da figura. “Se Pequim evitar decidir por decreto, aconteça o que acontecer em Hong Kong, o Governo Central ganha. É uma grande vitória. Todo o mundo dirá 'Pequim não está a interferir nas eleições de Hong Kong'. Ponto final.” O pior que Pequim pode fazer é tentar resolver o problema, pois, segundo Cheng Kai Ming, não há solução.

 

Quanto ao actual método eleitoral, o professor não se mostra contente, mas lembra que é uma solução transitória. “Não estou satisfeito com a forma como decorre a eleição neste momento, mas tenho de viver com isso, por enquanto. Espero poder viver o suficiente para assistir a uma eleição mais universal. Presumivelmente, em 2017, a eleição já será muito melhor.”

 

O sufrágio universal é um objectivo que todos concordam deve ser atingido, lembra o professor, mas as opiniões diferem é quanto ao ritmo a que essa mudança deve ocorrer.

 

Já no que diz respeito à polémica que envolve Donald Tsang, Cheng Kai Ming admite que o actual líder era conhecido por ter alguma ganância em coisas pequenas, mas nunca no sentido de infringir a lei. E entende que o Chefe do Executivo foi sincero nas explicações que deu e lidou bem com o escândalo, ao ter reconhecido o que fez e ter pedido desculpas. A poucos meses do final do mandato, Cheng Kai Ming avalia assim o desempenho de Donald Tsang: “Ele é fiel aos princípios de um representante dos funcionários públicos. Não diria que é um bom Chefe do Executivo, mas um bom funcionário público. Surgiu porque não havia alternativa. Não se esperava muito dele, em termos de liderança ou grandes reformas.”

 

Donald Tsang deixa o cargo no final de Junho e o sucessor não vai ter a vida facilitada, alerta Cheng Kai Ming, que fez um doutoramento em torno do tema da legitimidade. “Não é uma questão do que se fez certo ou errado, não é uma questão de legalidade. É uma questão de se ser visto como estando certo, de se ter o apoio e o reconhecimento das pessoas.”

 

Esta e outras reportagens podem ser ouvidas hoje, ao meio-dia, no magazine de informação da Rádio Macau Paralelo 22, dedicado este domingo às eleições para o cargo de Chefe do Executivo em Hong Kong. A partir desta tarde, o programa pode ser ouvido também aqui na página da Internet da Rádio Macau, ou terça-feira, na 98 FM, às 10h30.