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José Drummond não fica surpreendido com caso Rota das Letras
Sábado, 17/03/2018
O artista plástico José Drummond diz que não ficou surpreendido com o caso Rota das Letras, uma vez que não é a primeira vez que há censura em Macau.

“É, a saber a primeira vez que se faz de forma tão clara para alguma coisa que é organizada por portugueses. Acções pontuais de censura ou de impedimento que pessoas entrassem no território pelo lado chinês tinham vindo a acontecer. (...) Eu próprio tive um incidente que aconteceu comigo, com, claro, muito menor importância, em 2012, mas que me deu também para perceber que as coisas estavam a mudar”, afirmou o convidado desta semana do programa Rádio Macau Entrevista.

José Drummond revelou que em 2012 tentou exibir, sem sucesso, o documentário ‘So Sorry’ do artista chinês Ai Weiwei. “Tive essa oportunidade e lancei o desafio. Primeiro individualmente percebi logo que não iria ter apoio. Houve logo uma espécie de um “nim”. Então nessa altura aproximei-me das duas associações mais activas nas artes plásticas, nas artes contemporâneas – a Ox Warehouse e a Art For All – e também eles recusaram-se a mostrar o filme”, contou.

Para o artista os próximos tempos podem ser difíceis. “Considerar que qualquer um daqueles escritores é um escritor perigoso é quase a mesma coisa que achar que o David Bowie é um astronauta, porque não se pode considerar que escritores como aqueles sejam escritores absolutamente subversivos para a sociedade de Macau. É preocupante. Penso também que a procissão está no adro”, defende José Drummond.

Ainda sobre o futuro do Festival Literário Rota das Letras, Drummond espera que o o evento “não acabe porque tem sido uma aventura fascinante” e “é um evento cultural bastante importante na cidade”. Ainda assim, o artista admite que “há aqui um ponto de dor”. “Uma ferida que fica aberta e que foi causada por esta situação”, adianta.

Quanto ao futuro, José Drummond defende que é preciso “reflectir seriamente” sobre esta situação.

“Isso não significa silenciarmo-nos. Significa que, se calhar, teremos de começar a jogar o jogo de outra forma. Podemos, se calhar, alterar o discurso e continuar a dizer as mesmas coisas. O problema, se calhar, é como é que as vamos dizer e não propriamente se as podemos dizer ou não. Nestes casos da censura é sempre isso. Tem de se pensar. Se não se pode usar vermelho, se calhar, podemos usar cor-de-rosa e um bocadinho de preto ao lado. Vamos ter de ser mais inteligentes na forma como podemos falar de determinadas questões”, afirma José Drummond.

O programa Rádio Macau Entrevista tem transmissão este sábado ao meio-dia, com repetição segunda-feira às 10h30. A entrevista pode ainda ser ouvida aqui na página da Rádio Macau.

Gilberto Lopes com Marta Melo