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Sampaio considerou Murteira Nabo como alternativa a Vieira
Quarta, 22/03/2017

Jorge Sampaio sondou Murteira Nabo para ser o último governador de Macau, como alternativa a Rocha Vieira. A informação é avançada pelo ex-secretário adjunto e antigo encarregado do Governo, no segundo volume da biografia do ex-Presidente de República portuguesa, em que a recondução de Rocha Vieira é apresentada como a primeira grande decisão que Sampaio tem de tomar, depois de iniciar o mandato, em 1996. 

 

“Toda a gente o comentava criticamente, mas depois de lhe descascarem na cabeça achavam que devia continuar, por estar próximo do final”, diz Jorge Sampaio. Faltavam três anos para a entrega de Macau à China, a transição coincide com a recta final do primeiro mandato e podia afectar a reeleição. Sampaio acaba por optar pela via mais segura – mas a escolha poderia ter sido outra, se um almoço com Murteira Nabo tivesse tido outro desfecho.

 

Para o então Presidente da República, o encarregado do Governo entre as administrações de Melancia e Vieira surge como a alternativa mais razoável a Rocha Vieira.

 

Murteira Nabo conta que Sampaio lhe colocou a hipótese de ser governador de Macau em 1996. O ex-secretário adjunto disse estar disponível, mas aconselha-o em sentido contrário: “(...) Devia de manter o General. Expliquei que Macau fora um inferno que o Vieira conseguira acalmar, tendo desaparecido dos jornais (...). Ora, a minha nomeação podia levantar de novo o problema de Macau”.

 

Na biografia de Sampaio, são apenas identificadas três pessoas contrárias à renovação: Magalhães e Silva, que admite que ser governador de Macau era “uma das coisas que mais queria na vida”; Carlos Melancia e Monjardino. O motivo? “Sampaio precisava de alguém com quem tivesse uma cooperação franca e directa, o que não aconteceria com Vieira”, diz o presidente da Fundação Oriente.

 

Sampaio decide não abrir a porta à instabilidade, mas introduz uma mudança radical na relação entre Macau e Lisboa: Rocha Vieira passa a ir de três em três meses a Lisboa e reúne-se com uma espécie de ‘comité de crise’ para a questão de Macau. O general “detestava” estas reuniões entre o Presidente, o ministro dos Negócios Estrangeiros e três membros do Grupo de Ligação, diz o assessor Carlos Gaspar. Rocha Vieira tinha ainda de apresentar “extensos relatórios” e  fazer “relatos pessoais”.

 

“Houve realmente uma coisa que mudou: o governador passou a ter accountability”, sublinha Sampaio. E acrescenta: “Ele não estava habituado a ter de dar justificações. Era meu dever perguntar e era seu dever prestar-me contas... O resto são detalhes”.

 

Na biografia do antigo Chefe de Estado, são relatados vários episódios que confirmam a relação complicada entre Sampaio e Rocha Vieira. Sampaio destaca um: “A única vez que fui deselegante foi quando exigi uma reunião com todo o governo. (...) Fui mal-educado porque o Rocha Vieira me irritava com os seus silêncios e aquele ar pouco dado a comunicar francamente. Dei a volta à mesa e pedi a cada um [dos secretários-adjuntos] que falasse do seu sector e ele ficou para morrer”.

 

Há também mais detalhes sobre as cerimónias da transição, como as negociações para a hora de entrada das tropas em Macau: A China queria que fosse à primeira badalada do dia 20 de Dezembro, como uma demonstração directa de exercício soberania; da parte portuguesa, a intenção era marcar a diferença em relação a Hong Kong.

 

Jorge Sampaio ameaçou não estar presente nas cerimónias e diz que alimentou o suspense até Outubro. A dois meses da transição e depois de Jiang Zemin ter ido de propósito a Portugal, Sampaio decide, por fim, informar que marcará presença. E as tropas entram em Macau ao meio dia, depois de os dirigentes portugueses terem saído do território.