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Sampaio: Rocha Vieira “agiu de má-fé” na criação da FJA
Terça, 21/03/2017

Jorge Sampaio deu instruções claras a Rocha Vieira para não avançar com a criação da Fundação Jorge Álvares (FJA). A revelação é feita no segundo volume da biografia do ex-Presidente da República portuguesa, já à venda em Portugal. No capítulo sobre Macau, a que a TDM – Rádio Macau teve acesso, são notórias as divergências entre Sampaio e o antigo governador. Num livro publicado em 2010, o general garante que Lisboa nunca mostrou discordância sobre a fundação – sete anos depois, é acusado de ter agido de “má-fé”.

 

Na biografia de Sampaio, da autoria do jornalista José Pedro Castanheira, a versão é esta: o último Governador de Macau agiu à revelia da presidência portuguesa. O testemunho mais forte é dado pelo amigo e conselheiro do ex-Presidente da República, Magalhães e Silva, ao revelar que, quando finalmente soube que a FJA estava criado, Sampaio terá ficado de tal modo furioso que “o comentário não pode ser transcrito”.

 

O então Chefe de Estado terá imposto condições para a fundação ser estabelecida e que implicavam um acordo prévio com a República Popular da China, que o conselho de administradores fosse nomeado por Lisboa e que o último governador de Macau ficasse impedido de ser presidente, durante cinco anos.

 

Os critérios não foram cumpridos e quando os estatutos da fundação chegam a Belém, Sampaio demarca-se escreve uma nota a Rocha Vieira, em que diz: “Fica o PR totalmente à margem disto”. No livro, é também feita referência a uma reunião, tida a 30 de Novembro de 1999, em que Rocha Vieira informa Sampaio de que falara com Edmund Ho e que Macau “não estava muito de acordo com a designação da administração pelo governo”. “Nessa altura, indignado, o Presidente levantou-se e, com o dedo em riste, disse-lhe: ´Senhor Governador, assim não há Fundação Jorge Álvares! E, se à revelia das minhas instruções prosseguir nessa proposta, reservo-me no direito de esclarecer publicamente o que aconteceu”, relata Magalhães e Silva. “O Presidente respondeu que não queria ter nada a ver com aquilo”, reforça Carlos Gaspar.

 

Também os conselheiros de Sampaio garantem que não tinham a menor ideia de que a fundação ia mesmo avançar, com sede em Lisboa, financiada por Macau e presidida por Rocha Vieira.

 

Sampaio, que tinha dado o assunto por encerrado na reunião de Novembro, assume agora a “reserva mental” com que Rocha Vieira “criou” a FJA. “Agiu com má-fé: tinha instruções para não o fazer e fez”, afirma o ex-Presidente.

 

A criação da FJA foi mal recebida e fez com que Edmund Ho abrisse um inquérito para avaliar a transferência de capitais para Lisboa. Na véspera do lançamento do relatório, o então Chefe do Executivo terá telefonado a Magalhães e Silva e dito que recebeu instruções de Pequim para dar o assunto como encerrado.

 

A intenção era acabar com o escândalo, dando face a todos. Mas, meses depois, durante a visita de Edmund Ho a Portugal, Sampaio organiza um banquete e exclui Rocha Vieira da mesa de honra. Sabe-se agora que o então Chefe do Executivo fez um pedido. “Nunca mais me posso esquecer do que Edmund Ho me disse, em Lisboa: Lembre-lhe que já não é governador, o governador mudou, agora sou eu; quanto à fundação, nós tratamos disso”, conta agora Jorge Sampaio.

 

Recorde-se que na biografia “A todos os portos a que cheguei”, publicada em 2010, Rocha Vieira diz que os detalhes sobre a FJA foram acertados em meados de 1999 e que o então Presidente da República nunca lhe disse que estava contra.

 

Rocha Vieira esclarece ainda que “a fundação nasceu quando tinha que nascer” porque havia a “preocupação de criar instrumentos que garantissem a ligação de Macau a Portugal depois da transição”.